Riscos de resíduos de antibióticos na cadeia de leite

Riscos de resíduos de antibióticos na cadeia de leite e Comparativo de metodologias de análises

Objetivo: analisar os riscos de antibióticos na cadeia de processamento de leite e também realizar um comparativo de segurança e cobertura analítica entre duas metodologias de controle, para dimensionamento do nivel de cobertura em termos de drogas detectadas.

Macro avaliação da cadeia de produção de leite – fatores relevantes para a análise de riscos

A distribuição da venda destes medicamentos, segundo o SINDAN – SINDICATO NACIONAL DA INDÚSTRIA DE PRODUTOS PARA SAÚDE ANIMAL- mostra o seguinte quadro:

Vamos nos deter na distribuição do ano 2014, onde destacamos as seguintes classes:

  • Antiparasitários – 22%
  • Antimicrobianos – 17%

Ambas as classes, têm seus limites regulados pelo CODEX ALIMENTARIUS[1] (orgão conjunto, FAO e OMS, das Nações Unidas para a normatização da produção de alimentos), através de avaliações científicas promovidas pelo JECFA[2],(Joint Expert Comitee for Food Additives) e que representam perigos químicos a serem considerados pelas indústrias

Figura 1: Participação dos medicamentos por classe terapêutica

Dentre as espécies animais, temos a seguinte distribuição de comercialização, também segundo o SINDAN:

f1a1

Figura 2: Participação de mercado por espécie animal

f1a2

A relevância dos ruminantes é notória, visto que é o mercado mais representativo, respondendo por mais de 55% do total. Desta forma para a análise de riscos, este é o seguimento que representa o maior potencial de exposição para a saude dos consumidores.

Como nosso objetivo é fazermos uma análise e avaliação de riscos para os resíduos de antimicrobianos, nos concentraremos nesta classe terapeutica.

Para a produção de leite, como dissemos, os antimicrobianos são amplamente utilizados como medicamentos para o tratamento de mamite ou mastite. Infelizmente não dispomos de estatisticas brasileiras sobre a incidencia deste tipo de infecção, e buscamos uma referência internacional no caso no Canadá[3], onde em artigo de 2.008, encontramos uma inciência de 16 a 23% de infecções das vacas leiteiras daquele pais. Podemos supor que o Brasil não seria diferente, pois dadas as condições atuais de tecnificação da produção nacional os níveis devem ser até maiores.

Análise de riscos dos antibióticos na produção de leite

Considerando os fatores anteriores, fica claro que temos um grande risco da ocorrência de contaminação do leite por resíduos de antibióticos, mas isto não é novidade. A novidade é que podemos transformar esta análise em um processo quantificável, que nos possibilitará uma análise objetiva da probabilidade da ocorrência deste risco. Vale ressaltar que a análise de risco, assim como o APPCC, é uma forma de asseguramento da qualidade. A análise e gerenciamento de riscos é uma ferramenta que complementa e aprimora cada um dos métodos de gestão descritos, pois ela permite uma avaliação específica e numérica do risco avaliado.

Resíduos de Antibióticos

Vale ressaltar a ferramenta de análise de riscos é amplamente utilizada em seguimentos como seguradoras e também pelas autoridades sanitárias de vários países como FDA e também pelo JECFA, que tem uma publicação específica sobre o tema[4]. Desta forma podemos formular entre outras as seguintes pergntas sobre a aplicação desta ferramenta:

Como poderemos usar a ferramenta de análise de riscos para o nosso processo?

A análise de riscos é uma ferramenta científica, que permite um gerenciamento de sesu processo APPCC – HACCP- para a verificação permanente dos riscos que o seu produto poderá estar exposto para o controle de perigos identificados em seu processo de fabricação. Uma vez que os resíduos de antibióticos são um perigo que devem ser controlados antes da entrada do leite na fábrica, a forma da gestão dos riscos estará ligada diretamente à escolha do método de controle destes resíduos em seu processo de fabricação.

Preciso controlar todas as classes de antimicrobianos existentes?

A empresa deve controlar as drogas descritas no PNCRC[5] do MAPA[6] , publicados com atualizações a cada ano. O que muda é a incidencia e frequencia que deve ser aplicada a estes controles. Ou seja, o controle intensivo deve ser aplicado aos principios ativos que são utilizados de forma intensiva e os controles das drogas utilizadas com menor frequencia devem ser controlados de uma forma que garanta a adequação destes limites, ou seja através de programas de controle.

Desta forma teremos dois tipos de intensidade de controle, dependendo da análise de frequencia e intensidade, de acordo com o estudo efetuado pela operação da empresa:

  • Sistemáticos[7] – frequência a cada lote.
  • Programas de controle – definidos pelos dados coletados de cada empresa.

Quais familias de antibióticos devo priorizar?

Segundo todas as fontes consultadas em trabalhos de medicina veterinária, temos como drogas de escolha para os tratamentos de mastites, os seguintes compostos:

  • Betalactâmicos
  • Betalactâmicos e suas associações
  • Tetraciclinas

Estes compostos representam um percentual entre 80 a 90% dos medicamentos utilizados para o combate a esta enfermidade.

Desta forma, fica claro que estas classes devem ser ocntroladas de forma diária e as demais drogas devem ser controladas de acordo com programas específicos, para balancear os aspectos de segurança e custo do controle.

Qual a diferença de um controle sistemático de um programa de controle e monitoramento?

O controle sistemático é aquele que será realizado a cada recebimento de produto recebido, enquanto que o controle por programas de monitoramento devem seguir um critério científico que possa embasar esta tomada de decisão. Para a montagem de programas específicos, recomendamos a adoção de uma metodologia estruturada, prevendo estes aspectos e que possam dar um embasamento científico e técnico, quando do recebimento de auditorias de sistemas da qualidade, conduzidas pelo MAPA, ou por entidades certificadora. Colocamos 0 departamento técnico IDEXX à disposição para um suporte na montagem deste programa.

Quais são os limites a serem atendidos legalmente no Brasil?

O Brasil segue as recomendações do Codex Alimentarius, para os limites de resíduos de antibióticos. Estes limites são mostrados na tabela 1, para a orientação e montagem de cada plano de controle.

Para a montagem do plano de controle, temos que levar em conta os seguintes critérios:

Número de drogas definidas legalmente em cada familia a ser controlada, desta forma temos:

  • Betalactâmicos – 16 (dezesseis) drogas desta classe presentes nos princípios ativos comercializados
  • Tetraciclinas – 4 (quatro) drogas existentes nesta familia

 

Tabela 1 – Limites máximos de resíduos de acordo com as normas MAPA, para Betalactâmicos e Tetraciclinas:

Droga Família Limites Máximos de Resíduos –

LMR – ppb (µg/l)

Penicillin G Betalactamicos 4
Ampicillin Betalactâmicos 4
Amoxicillin Betalactâmicos 4
Cefalonium Betalactâmicos 20
Cefquinome Betalactâmicos 20
Cloxacillin Betalactâmicos 30
Dicloxacillin Betalactâmicos 30
Nafcillin Betalactâmicos 30
Oxacillin Betalactâmicos 30
Cefazolin Betalactâmicos 50
Cefoperazone Betalactâmicos 50
Cefuroxime Betalactâmicos 50
Cephapirin Betalactâmicos 60
Ceftiofur and metabolites Betalactâmicos 100
Cefacetrile Betalactâmicos 100
Cefalexin Betalactâmicos 100
Tetracycline, Oxytetracycline, Chlortetracycline Doxyciline e metabólitos Tetraciclinas 100

Quais fatores devo levar em consideração para a montagem do meu processo?

Como foi dito anteriormente, para a avaliação da metodologia de análise a ser escolhida deveremos utilizar o critério da frequencia e intensidade.

Desta forma temos os seguintes pontos a serem controlados:

Amplitude de detecção e especificidade do método de análise. Este é um critério direto para a classificação do método escolhido, ou seja, a capacidade do método de detectar a presença de drogas de uma determinada familia, dividida pelo número total de drogas desta familia. Este critério pode ser expresso pela fórmula descrita abaixo:

Amp% = NDetect ÷ NDrogas

Onde:

Amp% = Percentual de drogas detectadas pelo método escolhido

NDetect = Número de drogas da família detectados pelo método escolhido

NDrogas = Número de drogas totais da família regulamentados pela legislação

Para efeito de informação para os interessados na montagem de seu plano temos os seguintes valores:

N Detect = Valor para os Betalactâmicos é de 16

N Detect = Valor para os Tetraciclinas é de 4

Para a interpretação deste número, o conceito é claro: quanto mais o valor encontrado epla equação se aproximar de 100, melhor será a cobertura proporcionada pelo método escolhido.

Como eu poderia fazer esta análise, aplicada ao meu processo específico, levando em consideração os parâmetros previstos em uma metodologia de análise de riscos?

Aplicando os conceitos acima para determinarmos os critérios para a escolha de um método de análise deveria levar em consideração:

  1. Análise as características da sua metodologia de análises.
  2. Colete as validações do fornecedor e de organismos independentes, de terceira parte, para reforçar as suas tomadas de decisão.
  • Determine os valores percentuais de drogas detectadas, para determinar o grau de proteção e exposição do seu processo aos riscos de não detectar os princípios ativos das principais drogas de uso sistêmico (betalactâmicos e tetraciclinas)
  1. Prepare um programa de monitoramento periódico, para o controle das demais drogas, para que seja fechado o seu plano APPCC, para este tema, diretamente ou via um programa de pré-requisitos.
  2. Mantenha um registro documental de seu processo, com os fatos e dados gerados pelos seus processos de gestão de riscos.
  3. Revise periodicamente o seu gerenciamento de riscos, para garantir a segurança de seu processo e também um processo de melhoria contínua.

Conclusão:

Acreditamos que a gestão de riscos é uma ferramenta altamente recomendável para toda e qualquer empresa de alimentos, com foco especial na indústria de laticínios, no sentido de otimizar os seus processos de controle e também embasar as tomadas de decisões da área de controle e garantia da qualidade, através de um foco baseado na ciência e tecnologia dos alimentos, para garantir a inocuidade dos alimentos produzidos em toda a cadeia.

[1] http://www.fao.org/fao-who-codexalimentarius/scientific-basis-for-codex/en/


Referências Bibliográficas

[2] Joint FAO/WHO Expert Committee on Food Additives (JECFA).

[3] J Dairy Sci. 2008 Apr; 91(4):1366-77. doi: 10.3168/jds.2007-0757. Incidence rate of clinical mastitis on Canadian dairy farms. Olde Riekerink RG1, Barkema HWKelton DFScholl DT.

[4] IPCS INTERNATIONAL PROGRAMME ON CHEMICAL SAFETY ILO UNEP – Environmental Health Criteria 240 – Principles and Methods for the Risk Assessment of Chemicals in Food – A joint publication of the Food and Agriculture Organization of the United Nations and the World Health Organization – Chapter 8 – MAXIMUM RESIDUE LIMITS FOR PESTICIDES AND VETERINARY DRUGS.

[5] Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes – PNCRC Animal

[6] Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa)

[7] O MAPA através da INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 62, DE 29 DE DEZEMBRO DE 2011, determina que o controle de resíduos de drogas deverá ser realizado a cada lote, o procedimento de auditoria do MAPA preconiza uma análise mínima de resíduos a cada 25.000 litros de leite, ou a cada compartimento de leite no caminhão de transporte, o que for menor.

[1] André Oliveira é químico pela universidade Mackenzie, com especialização em alimentos, com mais de trinta anos nas áreas de controle e garantia da qualidade, em empresas como Kerry, Vigor e Nestlé. É gerente de Lacteos para o Brasil e América Latina da IDEXX.

About
Químico com especiliazação em alimentos Foi executivo das áreas da qualidade na Nestlé, Vigor, Kerry, Fuchs, Bel Alimentos e Mr. Bey. Foi gestor comercial da Idexx Brasil para as áreas de lácteos e Food Safety. É sócio da Food Suporte, consultoria para as áreas de alimentos e soluções para as indústrias e marketing e vendas para produtos científicos.

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